Agência Parceira: RGB Comunicação

Futuro do trabalho: profissionais passam a colocar o tempo no centro das escolhas de carreira.

Flexibilidade, novas formas de renda e dificuldade das empresas em contratar mostram que discussão vai muito além da jornada 5x2 ou 6x1, avalia especialista em gestão de pessoas.

O debate sobre o futuro do trabalho ganhou novos contornos. Se durante décadas salário, estabilidade e vínculo empregatício estavam entre os principais fatores para aceitar ou permanecer em um emprego, uma nova variável vem ocupando espaço nas decisões profissionais: o tempo.

Para Jaciani Rizziolli, executiva de Recursos Humanos com mais de 25 anos de experiência e CEO da Bridge HR, fenômenos que muitas vezes são analisados separadamente — como escassez de mão de obra, alta rotatividade, busca por flexibilidade, trabalho por diária, múltiplas fontes de renda e novas expectativas das gerações mais jovens — podem fazer parte de uma transformação mais profunda na relação das pessoas com o trabalho.

“Talvez estejamos tentando responder a um novo mundo do trabalho com perguntas antigas. Durante muito tempo, as empresas se concentraram em descobrir como atrair e reter profissionais. Agora precisamos entender por que uma pessoa escolheria continuar trabalhando conosco amanhã”, afirma Jaciani.

 

Não é apenas trabalhar menos

Na avaliação da especialista, reduzir a discussão a “trabalhar mais ou trabalhar menos” pode esconder uma mudança muito maior. De um lado, profissionais querem maior controle sobre o próprio tempo. Do outro, empresas precisam encontrar maneiras de transformar esse tempo em produtividade e resultado.

É nesse contexto que discussões sobre escalas como 5x2 e 6x1 ganharam força. Para Jaciani, porém, a mudança de jornada não pode ser tratada isoladamente ou apenas como benefício ao trabalhador.

“Tempo talvez seja hoje um dos ativos mais valiosos na relação de trabalho. As pessoas começaram a perceber com mais clareza quanto da vida entregam ao trabalho e o que recebem em troca. Isso muda a forma de escolher uma empresa, uma carreira e até o tipo de vínculo profissional que desejam”, explica.

A especialista chama atenção ainda para comportamentos que ajudam a compreender esse movimento: maior procura por flexibilidade, múltiplas fontes de renda, trabalhos

por hora ou diária, novas experiências profissionais e menor tolerância a ambientes considerados ruins.

Dinheiro também pode estar mudando essa relação

Outro componente levantado por Jaciani é o endividamento. Dados reunidos em seu estudo sobre o futuro do trabalho apontam R$ 36,8 bilhões em Crédito do Trabalhador entre janeiro e julho de 2026 e mostram que 74% dos participantes de uma pesquisa da Serasa já possuíam dois ou mais empréstimos.

Segundo ela, esse cenário permite levantar uma hipótese ainda pouco discutida: parte da procura por formas alternativas de trabalho pode não estar relacionada somente à busca por liberdade.

“Nem toda mudança de comportamento nasce de novos valores. Quando o salário já chega comprometido por descontos e dívidas, receber por uma diária ou por um serviço realizado pode gerar uma percepção completamente diferente sobre o dinheiro. Não significa que exista uma única causa, mas é uma variável que as

empresas precisam começar a observar.”

Quando a escala vira estratégia de negócio

Jaciani vivenciou essa transformação na prática ao participar de uma experiência pioneira de implantação da escala 5x2 no varejo alimentar brasileiro. Antes da mudança, a dificuldade de contratação chegou a comprometer a operação: durante quatro meses, a tentativa de contratar 220 pessoas não ultrapassava 80 profissionais, e uma inauguração chegou a atrasar 15 dias por falta de mão de obra.

A mudança foi precedida por estudos sobre modelos de escala, experiências internacionais, impactos jurídicos, custos, cultura organizacional e liderança. A partir de um projeto-piloto, a escala deixou de ser encarada apenas como uma questão operacional de Recursos Humanos e passou a integrar a estratégia do negócio.

Entre os resultados observados estiveram redução de horas extras, absenteísmo e turnover, melhora na atração de candidatos, redução de despesas com alimentação e vale-transporte e reorganização da operação sem aumento do quadro de funcionários.

“A 5x2 não mudou apenas uma escala. Mudou a equação entre pessoas, operação e resultado. Quando existe planejamento, a discussão deixa de ser simplesmente quantos dias alguém trabalha e passa a ser como organizamos o trabalho para que ele seja sustentável para as pessoas e eficiente para o negócio.”

 

Para Jaciani, empresas que ainda tratam temas como jornada, flexibilidade e qualidade de vida exclusivamente como demandas dos funcionários correm o risco de não perceber uma transformação estrutural do mercado de trabalho.

“A pergunta não é se o trabalho vai mudar. Ele já está mudando. A questão para as empresas é se elas vão esperar a falta de pessoas obrigá-las a reagir ou se vão entender esses sinais e começar a se preparar antes.”

Jaciani Rizziolli é executiva de Recursos Humanos com mais de 25 anos de experiência, com atuação em empresas como HSBC, Bradesco, Grupo Carrefour, Banco Carrefour e Grupo Savegnago. Atualmente é CEO e fundadora da Bridge HR, atua como CHRO as a Service, palestrante, mentora, conselheira consultiva e diretora regional da ABRH Noroeste Paulista.