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Agência Parceira: RGB Comunicação

Precisamos falar sobre (a falta de) consciência negra

Hoje, 20 de novembro, comemora no Brasil os 322 anos da morte de Zumbi dos Palmares. Por esse motivo, o dia é também dedicado à “Consciência Negra”. Mas afinal, o que é essa tal de Consciência Negra¿ Para contribuir um pouco com esse debate, o jornal Acontece traz uma entrevista informal com a jornalista e ativista Karine Amâncio, que conta um pouco da sua mudança de visão sobre a causa de combate ao racismo e da luta por igualdade racial. Antes, porém, de entrar na entrevista, vale destacar algumas informações que circulam na mídia brasileira sobre as condições sócio econômicas da população negra.
De acordo com a Oxfam - entidade do Reino Unido presente em 94 países, que combate a pobreza e promove a justiça social – só em 2089 os negros terão salários iguais aos dos brancos. Para isso, a Ong baseou-se em dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e da Pnud (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios). O período acompanhado é de 1995 a 2015. Com esses parâmetros, a entidade concluiu que o período em que houve uma estagnação na desigualdade de renda entre brancos e negros foi entre 2011 e 2015. Isso pode refletir a eficácia de programas de inclusão social, tais como bolsa família, cotas raciais nas universidades, entre outros.
Também, circula nas redes sociais a campanha “Vidas Negras” da ONU, lançada neste mês, com o objetivo de implementar a Década Internacional de Afrodescendentes. A campanha tem a participação de ativistas e artistas brasileiros, contendo várias reflexões sobre os problemas que afetam os negros no Brasil. Todo o material informativo, inclusive os vídeos, podem ser acessados através do site: https://nacoesunidas.org/vidasnegras/videos/.
O Brasil é o país da América Latina que tem a maior porcentagem de negros na sua demografia. Foi o último a abolir a escravidão; e é também o que, após a abolição da escravidão, não desenvolveu nenhuma ação de inclusão dos negros no sistema de produção e reparação dos danos sofridos. Por isso, falar sobre o Dia da Consciência Negra sem refletir sobre os números que medem as desigualdades, é cair no senso comum do discurso da “democracia racial” e da “camaradagem” da miscigenação existentes no Brasil. Evocar os números é a única maneira de mostrar que temos um problema sério que requer solução. O problema do racismo no Brasil vai muito além de ações comportamentais e dores na alma. Já que ele provoca consequências em toda a estrutura social.
Karine, por ter tido a felicidade de não ter sofrido na pele os efeitos mais duros do racismo, que é a exclusão social e consequente degradação na qualidade de vida, não se atentava para o problema. Sendo assim, ela figura como representante de uma grande faixa da população que desconhece as consequências da desigualdade racial em todos os setores da sociedade brasileira. O despertar da consciência veio para ela, após conhecer uma outra ativista. Trata-se de Alexandra Loras, ex consulesa francesa que tem forte atuação em movimentos de promoção da igualdade racial no Brasil, sendo reconhecida no exterior. Abaixo, em tópicos, Karine aborda várias questões e experiências que provocaram sua mudança de visão sobre a questão e início de posicionamento efetivo de combate ao racismo.
A jornalista nasceu em São Paulo, mudou para Sertãozinho aos 17 anos, permanecendo na cidade por uns 10 anos e logo depois retornou para São Paulo. Nessa volta à Capital, trabalhou por dois anos com a ex consulesa francesa, Alexandra Loras. Passou uma temporada em Nova York para estudar. Agora está de volta para em Sertãozinho para desenvolver projetos pessoais.
Como conheceu Alexandra Loras
“É uma história muito engraçada: meu tio é presidente de um movimento voltado para a comunidade negra que se chama “Sociedade Negra Paulistana”. A Alexandra foi fazer uma palestra em um evento que meu tio promoveu. Eu fiz a abertura (cerimonial). Fiquei sentada na primeira fila. Enquanto a Alexandra falava, olhava muito para mim. Achei engraçado. No final da palestra, quando fomos apresentadas, ela disse que já me conhecia. Ela tinha uma foto minha no celular, da época em que eu era modelo, gostou da mesma e deixou guardada nos arquivos. Quando ela desceu do palco lembrou da foto. Assim nos conhecemos, ficamos amigas e depois de algum tempo comecei a trabalhar para ela.”.
Estudos da língua inglesa
Karine é uma entusiasta do estudo da língua inglesa. Já havia passado um tempo no Canadá estudando o idioma. Durante essa última viagem ao exterior estava em Nova York estudando e colaborando com a “Assessoria Ativa” de São Paulo.
Participação em grupos
Mulheres Negras Empoderadas é um grupo que surgiu há dois anos em uma reunião na casa de Alexandra Loras, em que estavam presentes algumas mulheres, como atrizes, jornalistas e ativistas da promoção da igualdade racial, para discutir os problemas existentes na sociedade, que afetam as mulheres. Fazem parte desse grupo, por exemplo, Eliane Dias, ativista, mulher de mano Brown, Joice Ribeiro, jornalista do SBT.
Ativismo contra racismo no Brasil e fora do Brasil
Para Karine, ativismo por igualdade racial nos Estados Unidos é mais forte que no Brasil. Reforçado pelo fato de que o relacionamento entre negros, naquele país, ser mais solidário. Há mais cuidados uns com os outros e mais união, em ralação ao Brasil. Para ilustrar ela relata um fato corriqueiro entre negros e negras novaiorquinos. Quando uma pessoa não tem passe do metro, ela fica parada na catraca. Ao se aproximar outro negro este empresta o passe para que a pessoa possa embarcar. A prática, segundo ela, é comum nos metrôs da cidade, devido a certeza da solidariedade entre as pessoas.
Mito da democracia racial no Brasil
Para a jornalista, no Brasil não existe democracia racial; e acredita que vai demorar muito a existir. Pois aqui, o negro tanto pode ser discriminado por estar em algum lugar e parecer ser de uma classe social mais baixa ou ser discriminado por estar em um ambiente em que pareça ter o mesmo nível social e intelectual das demais. “As pessoas sempre ficam imaginando o que esse negro ou negra fez para estar ali. Nunca veem com naturalidade essa presença. Acha que a pessoa não deveria estar ali, ou se casou com alguém rico, por exemplo” (a possibilidade de um terceiro ser responsável pela sua ascensão social).
Cotas para curso superior
“Eu já fui contra. Hoje sou a favor. A Alexandra me fez pensar sobre o assunto. Não é a melhor maneira de resolver essa desigualdade. Mas por enquanto é a única maneira. O ideal era não precisar existir. As pessoas deveriam ter tido as mesmas oportunidades sempre. É preciso equilibrar a sociedade dessa maneira imposta, pelo menos por agora. Gostaria que não fosse preciso” (existir programas de cota racial para as faculdades).
Planos para participação em grupos de combate ao racismo
“Em São Paulo eu trabalhava com isso. A Alexandra organizou um Fórum o ano passado, e eu a ajudei; onde várias mulheres negras foram lá fazer um relato sobre suas histórias de vida e suas conquistas. Fizemos bastante trabalho nesse sentido. Agora, voltando para cá, pretendo procurar algum grupo onde eu possa fazer um trabalho parecido.
Sertãozinho é uma cidade que tem uma população negra numerosa, mas não vejo acontecer muito eventos que realmente chamem a atenção. Acho que poderia ser feito mais coisas aqui.
Preconceito em Sertãozinho
Para Karine, Sertãozinho por ser uma cidade do interior, enfrenta mais a questão da aceitação social. “Se a pessoa faz parte do mesmo círculo social, ela é bem aceita. Mas fora disso, existe um preconceito. Há um racismo mais velado. Mais preconceito à classe social do que de racismo em si. Apesar dele existir. As perguntas sobre os sobrenomes ilustram essa característica da cidade”.
Situações de preconceito
Karine que afirma nunca ter sofrido preconceito por ser negra, expressa seu incômodo com algumas situações em que as pessoas demonstram seu racismo através de comentários ou brincadeiras. “Existem pessoas que acham que não são racistas, mas são”, pondera. No entanto, para ela, o ambiente social em que vive e o fato de ser jornalista, ter trabalhado em tevê, desperta um tratamento mais respeitoso. Coisa que pode não acontecer com uma pessoa de nível social mais baixo.
Estudo sobre a causa
“Há dois anos, fiz um curso na USP, juntamente com a Alexandra, intitulado “Politicas de representação e imaginário da mulher negra na sociedade”. Por que não dá para falar sobre o tema sem saber direito o porquê das coisas”.
Mudança no jeito de encarar o problema
“Eu vivia no meu mundo e nunca tive problema sério com racismo. Sempre estudei em escola particular, tinha meu círculo de amizades. A vida estava seguindo bem. Eu não tinha sororidade. Não tinha preocupação em ver a dor do outro. Depois que comecei a trabalhar com a Alexandra, que a minha conduta mudou totalmente, nesse sentido.
Se para mim está tudo bem e para o outro não está, preciso fazer algo para ajudar”.
TED X

Karine relata também, a realização do TED X no ano passado, que por intermédio de Alexandra, o evento teve 18 mulheres negras, entre as 20 palestrantes. Com o tema “Mulheres que inspiram”, cada uma delas tem 20 minutos para expor suas ideias. São pessoas anônimas com histórias incríveis. Isso que é bacana, pois as pessoas famosas todos conhecem as respectivas histórias”.

Fotos da Vogue
A edição da revista Vogue de agosto de 2016 deu o que falar. Nela, a revista traz uma foto de várias mulheres negras sendo servidas por mulheres brancas, entre elas, Paola de Orleans e Braganca, tataraneta da Princesa Izabel. Entre as mulheres negras está Karine. A ideia foi levada por Alexandra Loras para os editores da revista, com o objetivo de provocar um debate sobre a condição da mulher negra na sociedade. O resultado teria despertado críticas, com algumas pessoas acusando-as de quererem passar de “oprimidas” a opressoras. Por outro lado, houve também muitos elogios, segundo ela.
Ascensão do racismo
“Hoje todos têm voz e acham que podem falar o que quiserem (por isso parece que o racismo está aumentando). As pessoas não estão mais tímidas. Estão falando mais. Tem mais oportunidade de expressão. Nos EUA racismo (não assusta tanto) é assumido. Lá há o fato também, de que os negros são mais unidos. Por isso a mobilização em torno da defesa dos seus direitos é mais fácil. Já no Brasil, racismo é dissimulado, não assumido e se esconde por trás da falsa democracia racial”.
Racismo mais cruel
“Quando eu era modelo e chegava para fazer um teste em alguma agência e caso houvesse 10 meninas negras, como todas sabiam que só haveria uma vaga, não conversávamos entre nós (por medo da concorrência). Não que eu não quisesse conversar com elas. No Brasil, isso (as poucas chances que os negros tem de disputar uma vaga no mercado de trabalho, em igualdade de condições com os brancos) faz com que seja criada uma rivalidade. Numa entrevista de emprego, uma negra ao chegar e ver outra negra, já pensa:- Ih vai pegar meu lugar!. Assim é estimulada a rivalidade”.
Para a jornalista, a prática proposital de dividir a raça negra para tornar sua mão de obra ainda mais desvalorizada e vulnerável, vem desde a escravidão. No caso das mulheres a aparência física era um elemento a mais para aumentar a exploração. Uma prática muito comum nas fazendas de café, era o “senhor” escolher aquela escrava com maior beleza para trabalharem dentro da casa grande e executar um trabalho “mais leve”. Isso despertava ressentimento naquelas que tinham que enfrentar a dura rotina das lavouras.
*Dias depois desse bate papo com o jornal Acontece, Karine contou ter percebido uma reação racista a seu respeito. Um prestador de serviços foi até o seu apartamento limpar o ar condicionado e começou uma conversa com ela, enquanto executava o serviço. Em dado momento, a pessoa ao descobrir que ela não era funcionária da casa e, sim, proprietária; não disfarçou o ar de surpresa. “Foi a primeira vez, aqui em Sertãozinho que eu sofri racismo. Em São Paulo já tinha acontecido, apesar de não ter sido nada violento”, relata.